Dois excertos
- Senhora, o que é que me manda?
Eu vim por vossa chamada!
- Quero saber se te atreves
a queimar minha Coivara!
- Atrever, me atrevo a tudo,
que um homem não se acovarda!
Dizei-me, porém, Senhora,
onde está vossa Coivara!
- É abaixo dos dois Montes,
na Fonte das minhas águas,
abaixo do Tabuleiro
e na Furna da Pintada,
na linha da Perseguida,
no corte da Desejada!
(Folheto XII)
Assim firmou-se para mim a importância definitiva da Poesia, única coisa que, ao mesmo tempo, poderia me tornar Rei sem risco e exalçar minha existência de Decifrador. Anexei às raízes do sangue aquela fundamental aquisição do Castelo literário, e continuei a refletir e sonhar, errante pelo mundo dos folhetos. Um dos tipos que eu mais apreciava eram os de safadeza, subdivididos em dois grupos, os de putaria e os de quengadas e estradeirices. Dos primeiros, o que mais me entusiasmava eram umas “décimas” do Cantador Leandro Gomes de Barros, glosadas sobre o “mote”
“Qual será o beco estreito
que três não podem cruzar?
Só entra um, ficam dois,
ajudando a trabalhar!”
As glosas eram assim:
“Frei Bedegueba dizia
a Frei Manzapo, em disputa:
- Existe uma certa Gruta
onde hei de ter moradia.
Hei de conhecê-la um dia,
embora quebre o Preceito.
Vou penetrá-la direito,
para a verdade saber,
pois preciso conhecer
qual será o beco estreito.
Dizem que tem pouca altura
e fica no pé dum Monte.
A entrada é uma Fonte:
vou medir sua largura!
Para saber-lhe a fundura
vou lá dentro mergulhar.
Para me certificar,
não podendo entrar os três,
só entra o Cabo-Pedrês,
que três não podem cruzar.
Um Padre já me contou
que foi dar uma caçada
e, nessa Mata fechada,
viu um Bicho e não matou!
De dentro, uma Voz gritou:
- Padre, dizei-me quem sois!
Podereis entrar depois,
respondendo ao que pergunto:
mas, dos três que vejo juntos,
só entra um, ficam dois!
Um Monge, de lisa fronte,
também já contou a mim:
- Já brinquei nesse Capim,
já ressonei nesse Monte!
Quase sempre a essa Fonte
venho eu e mais um Par:
os dois não podendo entrar,
por serem moles e bambos,
eu entro só, ficam ambos
ajudando a trabalhar!”
(Folheto XIII)
Do Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, Ariano Suassuna.









